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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

04
Jul17

Observando as pessoas na tranquilidade de uma manhã

Olho para as pessoas que passam em meu redor, a maioria sem nunca cruzar olhar comigo propositadamente.

 

Vejo crianças obesas a sair da pastelaria agarrados a uma bola de berlim às 07:30 da manhã enquanto a mãe aumenta a velocidade da passada porque já está atrasada para o emprego.

 

Vejo o reformado ansioso por um sorriso que irá despoletar uma conversa rápida que preencherá toda a sua solitária semana.

 

O senhor espertinho que estaciona em segunda fila porque está com mais pressa que todas as outras pessoas e irrita o senhor certinho que estacionou correctamente e alinhado com os delineamentos do estacionamento publico e que agora, atrasado para o trabalho se vê obrigado a acordar a vizinhança com buzinadelas.

 

Vejo um casal de meia idade aparentemente sem pressa a degustar o seu café e o seu cigarro enquanto descrevem as noticias que vão "folheando" no seu smartphone. Equivoco-me sobre o que farão da vida para poderem estar ali com tanta tranquilidade aquela hora do dia.

 

Vejo estudantes meninas-mulher com barriga à mostra e calções curtos, a andar e a mandarem mensagens, sorridentes e felizes.

Atrás delas 2 ou 3 rapazes desengonçados (que eles demoram mais a crescer), com acne e calças pelos joelhos, com ombros encostados e sorrisos baixos a tecer comentários sobre o rabo das meninas, que entretidas com o telemóvel nem os vêem.

 

Vejo as pessoas na micromini paragem à espero do seu autocarro da Rodoviária de Lisboa que aguardam religiosamente a sua chegada pois só passa um de 30 em 30 minutos e não podem dar-se ao luxo de o perder. Adicionalmente têm de ir controlando quem está a sua frente e marcar território para as novas pessoas que vão chegando saberem que eles estão ali. Tudo isto para depois irem mais de metade do trajecto até Lisboa de pé e a levar encontrões. Fazer o quê? É o que há. A vida não é fácil.

 

Com todas estas observações esqueço-me de beber o café e já o bebo frio.

Vejo que também eu estou atrasada para o meu trabalho.

Começo a contar os dias até às ferias.

Passamos a vida a correr e a sobreviver em vez de a degustar, de nos saber mesmo bem.

Nascemos num sitio e num sitio ficamos, construimos amigos duradouros ao invés de conhecer pessoas novas todos os dias (e eles são tantos por ai).

Coisas que não entendo, mas o que sei eu? Sei lá o que custa a vida...tenho casa comida e dinheiro, nada me falta deveria estar gorda e satisfeita.

Queixo-me de barriga cheia.

Estou gorda de conforto.