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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

27
Jun18

O meu avô morreu

O meu avô reformou-se aos 40 anos por invalidez fruto de um acidente de trabalho que por sorte não foi fatal.

 

Por esse motivo, e porque também os meus pais viveram na casa dos meus avós até aos meus 10 anos, ele sempre foi a minha babysitter.

 

Era a minha melhor companhia.

Jogávamos a bola, mascarava-o, e quando já sabia as letras sentava-o à minha frente e fingia que o ensinava, pois ele é analfabeto.

 

Ontem a minha avó pediu-me para ir à Tosquia com a Marta a cadela dela\nossa.

O meu avô, nos seus 86 anos e com profundo amor por mim e eu por ele, gosta sempre que jante lá em casa então perguntou-me antes de eu sair com a minha avó "Vens cá jantar?" e eu acenei-lhe que sim.

 

Quando saímos da veterinária passou-me uma ideia pela cabeça e disse "Avó, afinal não vou jantar, vou para minha casa e como lá qualquer coisa".

 

Quando parei à porta dela, até puxei o travão de mão, mas disse-lhe "Olha já nem vou entrar, podes sair. O avô é que vai ficar triste porque eu disse-lhe que vinha mas olha, amanhã falo com ele".

 

Eram 04:30 acordei e olhei para o telemóvel.

Não conseguia dormir e acendi o candeeiro para ver se me cansava.

Às 07:40 o meu despertador toca e quando o vou a desligar vejo que tenho chamadas não atendidas, coisa muito rara de acontecer.

 

Tinha uma chamada do meu pai e outra da minha mãe.

Algo bom não podia ser.

Liguei então à minha mãe, que me diz "O avô faleceu, não sei o que dizer" e começou a chorar.

Naquele microsegundo veio-me à cabeça o meu acenar a dizer que ia jantar, mas não fui.

 

O meu pai pediu-me para ir ao armazém dele, visto que eles venderam a casa e o senhor iria lá buscar uns documentos.

Estou aqui ainda sem ter falado com a minha avó, que é o ser mais precioso da minha vida.

Sofro por ela.

 

Penso também se me deveria pesar o facto de não ter entrado nem que fosse para me despedir, mas também não quero traumatizar-me por isso, sei bem quão mimoso o meu avô era e por ele nunca estaria satisfeito com o tempo que estava com ele.

 

Se ele ficou chateado? Claro que ficou, como fica sempre, não me posso crucificar por isso.

Acima de tudo, depois do choque foi o alivio por ele não ter sofrido, por não ter estado dias a fim num hospital, por ter dormido a ultima noite na cama dele, ao lado da minha avó.

 

Ainda ontem ao almoço (almoço todos os dias com eles), me apertou a mão e me sorrio, mesmo dizendo "isto não está nada bom".

Fico grata por ter podido ter um dia como todos os outros.

Não sei se é chocante estar a escrever isto em cima do acontecimento, mas também precisava tirar isto de dentro de mim sem ter de olhar nuns olhos ou esperar pena.

 

A morte chega sempre com uma desculpa, eu só não quero ter uma.

Agora tenho de me preparar para ajudar a minha avó a viver o dia-a-dia dela sem o seu companheiro de 50 anos.

Essa vai ser a parte mais dificil.

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