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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

14
Nov18

A saudade de quem parte

Acredito que sou sortuda.

Nunca soube bem como iria reagir assim que perdesse a primeira pessoa.

Tive ao longo dos últimos anos alguns tios que foram morrendo, tudo por doença,  mas tudo não muito prolongado nem demasiadamente doloroso.

Não assisti a grandes degradações, com excepção da minha avó que já passaram mais de 10 anos e era muito miúda para absorver o impacto que aquilo teve para a minha mãe.

Além disso nunca fui muito ligada à família da minha mãe.

Eram e são pessoas propensas para a desgraça (como ela diz).

A minha avó criou 8 filhos e depois disso decidiu entregar-se ao tabaco e ao álcool.

Iniciou o seu degredo e a família assistia em silêncio porque ninguém queria muito saber e além disso nunca se está preparado para educar a própria mãe.

Quando eu nasci esta situação já existia e lembro-me da minha mãe me avisar para não aceitar ir comprar vinho à minha avó.

Vivíamos todos no mesma praceta. Eu, pais, avós maternos e avós paternos.

Foram todos criados ali e por ali se criaram até aos meus 10 anos.

A minha mãe perdeu o pai muito cedo e assim que se casou com o meu pai mudou para a casa dos meus avós paternos e eles adoptaram-na.

Nunca sabia muito bem porque a minha mãe não me levava tantas vezes a casa da avó.

Hoje compreendo que ela não queria que eu assistisse nem ao sofrimento dela, nem ao degredo daquela casa.

Dos 8 irmãos poucos se safaram do tabaco e do alcoolismo.

A minha avó morreu já sem pernas porque devido ao diabetes foram-na cortando aos poucos.

Lembro-me da ultima vez que a vi, tinha 15 anos na cama do hospital dos capuchos.

Só recebia 1 visita de cada vez e não pude dizer que não porque já sabia que teria de despedir-me dela.

Estava tão inchada que nem a reconheci.

Tirei um tempo para lhe tocar na mão e em silencio relembrei todas as poucas memorias que tinha dela.

A mão dela estava amarela e gelada.

No dia seguinte morreu.

Nunca vi a minha mãe chorar, nem estive ao lado dela durante o funeral ou velório.

Não tinha maturidade para perceber que ela estava a sofrer tão ou mais que os outros, mas que tinha de ser o pilar deles todos.

 

Passados 14 anos foi a minha vez de ser o pilar de todos.

O meu avô morreu, pacificamente e eu não chorei.

Agarrei a minha avó por um braço, agarrei a minha mãe pelo outro, abracei o meu pai e o meu irmão e sorria.

Sorria como o meu avô me fazia a mim desde sempre.

No dia que ele morreu fizemos uma almoçarada a rir e contar as historias que ele contava.

Bebemos todos vinho tinto e discutimos sobre quem bebeu mais, como sempre acontecia.

À medida que o tempo foi passando fomos sobrevivendo.

Tenho momentos em que os pensamentos se cruzam com a saudade por me esquecer que ele morreu.

Tenho momentos em que quero partilhar coisas com ele e ouvir a sua opinião, mas lembro-me que ele não está.

Sexta-feira dia 16 de Novembro ele faria 87 anos.

Vai chegar a primeira data em que todos vamos quebrar e sei que a minha família espera tudo de mim.

Espera que eu seja a voz que os acalma tal como acalmei naquele dia.

Sexta-feira, vou jantar com a minha avó, levar pizza para o jantar como ele gostava e embebedarmo-nos com uma bela pinga (pois não poderia deixar de ser).

Vamos rir, vamos chorar, esteja quem esteja, à bela moda transmontana.

Vou reconfortar-lhe o coração da melhor maneira que sei como ela me reconforta o meu.

Ontem, depois de ter feito uma directa numa noite ontem houve descaída ela olhou para mim e perguntou "Não dormiste pois não filha?"

Tal não eram as minhas olheiras.

Eu disse "Não avó".

E com o olhar, ela reconfortou-me e eu pedi-lhe desculpa.

Tudo em silêncio. 

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