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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

29
Out18

A fugir das drogas - parte II

Esta semana ia no carro e começou a chover.

Pensei sobre há quanto tempo não sentia a chuva a cair-me na pele.

Fiquei chateada comigo mesma.

 

Há muitas coisas que deixei de sentir prazer em fazer desde que passei a privilegiar o buraco negro.

Buraco negro porque a luz atrapalha a moca.

Até lençóis com molas prendemos nas janelas para continuarmos o serão domingo dentro.

Adiante.

 

Hoje tenho o que comemorar!

Pela primeira vez há muito muito tempo passei um fim-de-semana completamente zero de droga.

E mais, passei o fim-de-semana com a minha família!

Nem queriam acreditar.

Por debaixo dos resmungos do meu pai e os gritos da minha mãe habituais nas minhas visitas senti um profundo alivio por me terem perto deles.

Como disse a minha mãe "Por poder saber que estás bem".

 

Confesso, não foi difícil.

Quando acordei domingo e senti o cheiro dos lençóis lavados ao invés de cheiro a cigarro perguntei-me se preferia estar ali ou estar num after.

A resposta foi clara.

Não trocava o conforto da minha cama e a tranquilidade da minha alma por nada.

 

Senti-me mais perto de mim outra vez.

Acordei e fui tomar o pequeno-almoço com a minha avó, que já se tinha redimido na sexta-feira (sem saber que já tinha planeado isto) dizendo:

"Filha, este fim-de-semana não te vou ligar nem uma vez, se quiseres, ligas tu".

Disse isto porque não lhe atendo telefonemas vai para duas semanas.

Não posso dizer-lhe porquê, tive de inventar que tinha um namorado.

 

Ficou toda contente, mais contente ainda por lhe dizer que íamos almoçar a casa dos meus pais.

Tão querida nem me pediu boleia para casa dela com medo que dali partisse para outros destinos.

 

"Deixa-te ficar com a tua mãe no sofá que o pai leva-me".

E assim foi.

Eu e a minha mãe tivemos uma sessão de corta e coze com o programa "Casados à primeira vista", o  meu pai foi para o Sporting com o meu irmão e tudo correu sem espinhas.

 

Quando o meu pai chegou a casa até comentou comigo que há muito a minha mãe não ficava acordada tanto tempo.

E eu sei porquê.

Acabei por dormir nos meus pais ontem.

Hoje de manhã através do telefone soube das novidades da noite lisboeta.

Sem qualquer espanto, foi tudo como sempre.

Não senti saudades.

Fiz a troca certa.

 

Hoje, segunda-feira, pela primeira vez há muito tempo não estou com nariz entupido, voz rouca e a assoar-me de cinco em cinco segundos.

A minha pele está brilhante, sem olheiras, as minhas ideias fluem, tenho energia para dar e vender.

 

É incrível como aquela coisa me suga e depois cospe-me, fazendo-me sentir inútil.

Sem ela tudo é verde novamente.

 

Atenção: estou a cantar vitoria mas a guerra não acabou.

Este foi um passo muito importante. Eu decidir sobre as minhas vontades e não me deixar levar pelos vícios.

Mas vem aí um fim-de-semana grande e eu nem sequer trabalho na sexta-feira.

A vontade de fazer um mega super after fervilha, não posso mentir.

Contudo, a minha santa mãe faz anos dia 01 de Novembro e portanto já sei que à festa do Halloween vou faltar.

Já me guardo da noite forte.

Vamos ver se me consigo guardar do resto.

23
Out18

A fugir das drogas - parte I

Vejo-me num lugar onde eu própria me coloquei.

Não tenho mais nada senão um circulo de droga.

Fiquei azeda e insensível com aqueles que gostam de mim, porque digo..."eles não percebem".

A minha mãe já percebeu há muito que não sou a mesma.

E pior, já insinuou que "ando nas drogas" como ela diz.

 

Desde que o meu avô morreu que a dinâmica familiar se alterou é verdade, mas podia ter sido tudo mais fácil se estivesse sóbria.

A minha avó ficou mais dependente de mim e eu não consigo nem quero corresponder.

Estou com outros problemas para resolver.

Estou a tentar sair do lodo e reencontrar-me, sozinha.

Sozinha não porque queira mas porque todo o circulo à minha volta está minado tal como eu.

 

De repente, vi-me cercada de droga, drogados e dealers.

Não me interpretem mal, é tudo boa gente.

Pessoas com empregos que mantêm, com vidas organizadas e alguns até abastados.

Quando digo drogados não são pessoas em ultimo estágio, mas sim pessoas que a unica coisa que os une a mim é a droga.

Não quero dizer com isto que não seria amiga destas mesmas pessoas sem droga, mas como ambos sabemos que partilhamos do mesmo gosto e o podemos fazer sem sermos censurados, acabamos por só fazer isso.

E o simples facto de sabermos que aquela gente nos percebe, torna tudo muito mais fácil e apetecível.

Mas isto é um comportamento que não tem necessariamente a ver com ser droga.

Por exemplo, há aquelas amigas que sabemos que nos vão entender quando quisermos ir em plenos saldos enfiarmo-nos no Colombo o dia todo.

Temos sempre aquele amigo que vai aceitar, sem nos condenar, se quisermos ir beber imperiais até cair a uma terça-feira.

Ou até aquele outro que, ao contrario do resto, vai aceitar ir em pleno inverno à praia.

 

E por saber que não vão dizer não, por sabermos que alinham, fica muito mais difícil de bloquear estes desejos.

Ou temos autocontrolo e esmagamos as vontades, ou então se nos deixamos ir eles vão connosco.

Entendem?

 

E por isso a única solução é afastar-me de todos os que sei que vão dizer sim.

É afastar-me dos ambientes que estimulem o meu vicio.

É voltar a construir outra imagem das coisas.

Mas isso leva tempo.

E eu sei que já devia ter começado há muito tempo atrás.

Julgo que o Inverno veio para ajudar.

Mais tempo em casa debaixo das mantas, mais frio que vai condicionar idas à rua.

Desilude-me vir escrever novamente sobre o mesmo tópico.

Até o meu blog vim contaminar com este tema.

Mas....ele deve ser um reflexo do que sou, mesmo nas más alturas, certo?