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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

23
Jan18

Um amigo não é um caixote do lixo

 

 

Dias maus e bons toda a gente tem.

Compreendo que queiram falar, e como diz o outro, "Amigo é para as ocasiões".

Mas vamos lá ver uma coisa....o amigo também é um humano ok?

É bom medir aquilo que sai de um lado para o outro.

Não é só abrir a goela e aqui vai disto!

É que efectivamente nós (amigos) ouvimos as coisas!

Efectivamente sentimentos a vossa dor!!

Efectivamente absorvemos toda a má energia inerente àquele mau momento!!!

 

QUANTAS e QUANTAS vezes chegam até mim como se o mundo fosse acabar porque têm um ENORME problema que NÃO CONSEGUEM RESOLVER e eu sou levada naquele turbilhão de emoções, envolvo-me, paro a minha vida, dou conselhos, fico noites sem dormir, às vezes até chateio outras pessoas que talvez possam ajudar a resolver o problema, dou a volta ao mundo e de repente......no dia seguinte o problema, que era TÃO GRANDE, já não é nada, já se resolveu, está tudo bem...e eu sinto-me esgotada psicologicamente!

 

Então amigas em relações....Aos milhares de problemas!

Eu não tenho namorado e aturo os problemas das relações dos outros!

E depois com quem é que EU vou desabafar?

Com ninguém! Porque não gosto de fazer isto às pessoas.

Isto é um assunto sério!

 

É como a história do João e do Lobo.

Todos os dias um drama gigante que no dia a seguir já não é nada.

Gosto de estar disponível para os meus amigos e ajuda-los naquilo que posso, se eles precisarem de passar HORAS a dizer barbaridades eu estarei lá para ouvir, mas não pode ser feito de ânimo leve, e todos os dias!

 

Má energia tem limites!

Estes momentos têm de ser controlados, senão a relação satura-se.

Não gosto.

Não gosto quando me ligam para descarregar os problemas apenas e só para se sentirem melhor e esquecem-se que se calhar, agora sou eu que preciso 2 dias de férias, porque guess what? Sim, também tenho alguns problemas, e sim, não contei porque simplesmente não há nada que possam fazer para me ajudar, são coisas que eu tenho de resolver sozinha!!!

 

Não gosto que tirem a minha tranquilidade por dá cá aquela palha!

 

(momento para respirar)

 

Outro flagelo:

Não gosto que me liguem se não tiverem realmente algo para me dizer.

Só porque vão no carro e não querem ir sozinhos.

E depois até nem disfarçam, porque se por alguma razão não consigo atender e ligo de volta passado 30 segundos já está o número ocupado porque ligou a outra pessoa qualquer...

Porquê? Porque não ligou porque tinha realmente algo para me dizer, mas sim para passar o tempo.

E na cabeça deles não há mal....

Afinal de contas o meu tempo não tem assim tanto valor!!

Aliás....eu ATÉ nasci para servi-los...

Não faço mais que a minha obrigação!

 

E depois...são as mesmas pessoas que, caso eu lhes peça um microminifavor, do género: "Podes sff ir limpar-me a areia dos gatos no sábado?"

UIIIIII....sacam logo do caderno dos favores e começam o diálogo da humilhação.

"Epa não me dava nada jeito...eu só faço mesmo porque és tu pedir, sabes que ando mesmo cansado e sábado é o único dia que tenho para descansar e bla bla bla"

Dá quase vontade de dizer "Ok não há mal deixa estar eu cá me arranjo", mas nem isso me vai trazer paz pois logo de seguida iria vir o discurso do ofendido...

 

E depois o que vai acontecendo é que já nem abro mensagens da pessoa porque JÁ NÃO HÁ PACHORRA!!

Já nem atendo telefonemas....

Já nem ligo de volta...

 

A relação vai-se deteriorando.

E o outro lado, como me dá por garantida, nem percebe o que está a acontecer.

E ainda fica com ciumes se começo a ter programas com outro tipo de pessoas.

Claro! Estou farta de ficar sentada numa esplanada a ouvir os mesmos dramas.

 

Às vezes temos de relembrar os amigos que estamos disponiveis porque queremos!

Não é um full-time job!

Não somos propriedade deles.

E sim, precisamos de ser conquistados todos os dias!

É um casamento para a vida!

 

Pronto já disse.

22
Jan18

Porque ainda é arbitrário ter um filho?

Com todo o respeito que tenho pela maternidade, condição que me permite estar aqui agora a opinar, preciso partilhar ideias que me passam pela cabeça.

 

O mundo foi evoluindo e os seres humanos foram aumentando.

Consumindo portanto mais recursos.

Destruindo habitats de varias espécies.

Espécies essas que foram portanto, diminuindo.

Algumas até extinguiram.

Paralelamente produz-se também mais.

Produção massificada sustentada por redes de exploração de seres-humanos e animais.

Por consequência gera-se mais lixo.

 

Estado de graças: A terra aumentou 1º desde a revolução industrial.

Os últimos 3 anos bateram records de temperatura.

Vi uma reportagem há dias que explicava os efeitos do aumento em mais um e dois graus, que se espera que aconteça se mantivermos tudo igual.

 

Ouvi relatos assustadores sobre a falta de agua potável.

Por consequência falta de condições que temos hoje como garantidas.

As ruas passam a ser selvas e instala-se a anarquia.

 

Pelos cálculos da reportagem, eu ainda seria viva.

 

Vi aquilo com o descanso que apenas iria sofrer eu.

Não tenho filhos. E para já, nem companheiro.

 

Mas fiquei a pensar nos que foram pais agora.

Fiquei a pensar o que lhes vai na cabeça? O que tem o mundo para oferecer aquelas crianças?

Será que vêm noticias?

Não os assusta?

 

De quem é o real interesse da maternidade?

Pais e sociedade.

Pais porque querem ver personificado o amor que os une (vou por de lado outras verdades) e a sociedade porque a economia precisa de mexer.

Há uns anos estava a tirar um curso de finanças na Universidade Católica e a professora dizia que a previsão de receitas para os próximos 10 anos são assustadoras.

Não há jovens portugueses suficientes.

A alavanca seria a "importação" de estudantes.

Apostar no sol português para atrair estudantes estrangeiros.

Daí a construção da nova faculdade na linha de Cascais....

 

Entendem?

Ou seja, é preciso novas crianças, que façam os pais gastar dinheiro, que cresçam e ganhem dinheiro para que os pais possam usufruir de reformas...

É um ciclo que não deve parar.

Mas...E a criança?

 

Leva com a responsabilidade de vir salvar o mundo que as gerações anteriores fizeram questão de destruir.

Leva com um mercado de trabalho saturado onde reina o salve-se quem puder e o recurso a antidepressivos.

Leva com aguas poluídas, praias sujas, florestas queimadas, verões de chuva e invernos de calor.

 

Posso e estou com certeza a ver a história pelo pior prisma.

Mas na minha cabeça só faz sentido tomar uma decisão se me fizer sentido passar também por estas realidades.

 

Mas ok....

Assumindo que ninguém vai deixar de ser pai\mãe, faz sentido essa decisão ser arbitrária?

 

Neste momento, faz?

Olho para o lado e vejo famílias inteiras a viver sob a alçada de subsídios sociais.

Se eu for adquirir um crédito ao banco eles vão ver se eu tenho condições para pagar a divida certo?

Então porque raio pode uma família de 4 elementos (ou mais), TODOS sem rendimento, procriar? Sem aval do estado?

Não querem aval do estado? Sim senhor, então também não têm direito a nada.

 

Eu conheço uma família cujo o primeiro filho nasceu deficiente (problema mental). Os próprios pais têm um ligeiro atraso, mas fazem a sua vida normal.

Não contentes com a situação....tiveram mais 2 filhos.

Ou seja, estamos a falar de uma família com 3 filhos com atraso mental.

Mas isto faz sentido?

Se eles quiserem, podem ter mais filhos.

 

E sem falar na quantidade de crianças nos lares que ninguém adopta.

São um submundo da sociedade colocada de lado, pelos pais e por todos nós.

Outro flagelo.

 

E outros territórios do mundo onde não reina um estado social, alias, se for preciso reina o verdadeiro inferno, e estão mulheres a dar à luz em campos de refugiados???

Meu deus!

Nasceram directamente no inferno da guerra pobre seres.

Faz sentido?

 

Penso que para todos os efeitos e mais alguns deveria ser controlada a natalidade no mundo.

E para não ir mais longe e não dizer que deveria ser fabricada.

Imaginemos um mundo em que ninguém podia ter filhos?

Ou seja, as inseminações davam-se em laboratório, num cruzamento de genes supostamente "ideais" (sei lá como).

Eles nasciam e eram criados em centros de criação e entregues ao mundo para serem úteis em determinadas áreas.

Só nasciam seres de facto necessários para repor as perdas e manter um nível social equilibrado.

 

Será utópico?

17
Jan18

Devo ter cuidado com o que visto?

Também gosto de me sentir sensual.

Tenho dias de tirar selfies de cima para baixo com um decote em v profundo.

Outros de costas em topless.

Troco mil vezes de outfit até encontrar um que corresponda ao meu humor.

 

E o meu humor às vezes é sexual.

Se há dias que ponho um chapéu porque o meu cabelo parece saído de um filme de terror....

Também tenho outros que vou com toda a confiança do mundo vestindo um mini vestido e lábios vermelhos.

 

Se sei que vão olhar para mim?

Cálculo com base na minha experiência que....sim.

Eu própria não me contenho de ver o meu reflexo a cada passo.

 

Se sei que vou ser mais assediada?

Não sei se mais assediada, mas o publico que vou atrair vai ser naturalmente diferente.

Obviamente que tenho em consideração esse factor, mas se colocando na balança continua a fazer sentido e estou confortável, então saio de casa como me der na gana.

 

Mas e depois? Deverei "assumir as consequências da minha escolha"?

Atraímos determinadas pessoas consoante o nosso aspecto.

E quem ainda não notou este fenómeno, ou está circunscrito ao mesmo estilo ou ao mesmo ambiente.

É assim e sempre será.

 

Se é preconceito?

Sim talvez, mas partindo do principio que quem nos vê a passar na rua não nos conhece, as únicas pistas acerca da nossa personalidade é, de facto, a nossa aparência.

 

Pode ser totalmente o contrário, mas se eu vir uma rapariga de roupa desportiva e outra com uns calções curtos e um top, vou achar que a dos calções curtos é mais confiante de si, mais sexual, mais atrevida etc.

Verdade seja dita: há roupas que só alguém com bastante confiança veste. E nem estou a falar de mostrar muita pele.

Um vestido tigresa justinho até aos pés também serve por exemplo.

 

Não estou necessariamente a falar sobre andar com pouca roupa e muita pele à mostra.

E não estou naturalmente a falar apenas da roupa, pois obviamente a mulher primeiramente tem de ser jeitosa.

 

Mas voltando...A roupa passa uma mensagem.

E se decidimos vestir certas roupas "out of the box" temos de estar cientes que vamos chocar a opinião publica, no sentido mais lato, sujeitas ao julgamento publico, mas também mais expostas ao assédio.

Porque as pessoas partem do principio que as mulheres não se vestem para elas próprias.

Vestem-se para chamar a atenção dos homens.

O que em parte é verdade, mas só daqueles que elas querem atrair.

E estão no seu direito.

 

Estes últimos dias por força das circunstâncias tenho ouvido falar muito sobre assedio sexual a mulheres etc e tenho pensado sobre o assunto.

 

Se por um lado acho que devemos ser livres de vestir o que queremos, por outro acho que devemos medir a ocasião ou circunstância.

Se eu quero passar despercebida numa festa de palhaços, não vou vestida de coelhinha.

 

Mas repararem em mim até me apalparem o rabo é bastante diferente não?

Certo. O facto de estar vestida de uma forma mais sexual ou sensual, não dá a ninguém o direito de tocar no meu corpo.

De me desvalorizar, de me atacar verbalmente seja o que for.

 

Somos todos seres humanos e não acredito que (vamos apenas falar de homens) os homens sejam seres tão pouco racionais que não saibam lidar com os seus impulsos sexuais.

Não estamos na idade do fogo em que cada vez que uma mulher se baixava era penetrada.

Temos consciência das coisas e leis que nos protegem.

 

Não considerando um piropo um assédio, penso que no final tem de prevalecer o respeito e a vontade da pessoa.

As mulheres não são ninfas que seduzem os homens para depois os matar.

Nem os homens são um bicho papão maus e porcos.

Se existem problemas sérios de assédio sexual devem ser enfrentados e resolvidos no momento em que acontecem.

 

Agora, o que não se pode querer fazer é deixar passar uma mão na perna porque dá jeito, e depois quando não têm o que querem lembram-se de proclamar assédio!

 

Vamos chamar as coisas pelos nomes.

15
Jan18

Não nos deixemos perder!!

Gosto de navegar na minha mente esquisita e aliciante, como agora mesmo estou a fazer.

Apaixono-me por mim mais e outra vez.

Pelo meu sorriso fácil, o meu choro contido, o meu mau feitio matinal.

Quero-me tanto que não sei se encontrarei alguém suficientemente bom a quem me entregar.

Esta adopção não vai ser fácil.

 

Quando estamos apaixonados pelo nosso espaço, pelo nosso tempo, pelo nosso eu...é difícil doá-lo.

É difícil abdicar dele, comparti-lo com outra pessoa.

A curiosidade fica mais aguçada e difícil de satisfazer.

 

Já vimos tudo tantas vezes.

Parece-nos tudo tão igual e desinteressante agora que crescemos.

Melhorar o nosso eu é bom, é prazeroso. 

Polvilhar a nossa vida de experiências e aventuras, de viagens e gravuras sabe bem e recomenda-se.

Mas aquele muro que a experiência nos traça é difícil de saltar.

É muito alto para subir.

 

Vamos construindo mais e mais requisitos em nós próprios, desejando ser e ter cada vez mais e mais.

Tornamo-nos isolados, perfeccionistas, sem capacidade de encaixe.

Buscamos o raro porque o comum já não nos excita.

Buscamos o igual a nós para não estragar muito o trabalho já feito.

Para não destoar, não misturar.

 

Acabamos a preferir-nos a nós próprios do que a novas aventuras que dão trabalho e podem destruir-nos a tranquilidade.

A vida simples é a que dá gosto, mas com a experiência que vamos podendo ter, sítios que vamos podendo ver e pessoas que vamos podendo conhecer o gosto fica mais requintado. A fasquia mais alta.

 

Deixamo-nos levar pela ideia de que só o que dá trabalho é que vale a pena ter, é que dá gozo conseguir.

Começamos a ficar viciados no sofrimento.

Mas a beleza da vida não está nas coisas simples?

Num beijo com paixão.

Num olhar interminável.

Num cheiro a pão acabado de cozer.

Numa lambidela de um cão.

Num sorriso de uma criança.

 

Ver o mundo sim, mas com o coração.

Não nos deixemos robotizar, não nos deixemos manipular, não nos deixemos perder a noção do que realmente importa nesta passagem.

Vamos abraçar, vamos beijar, vamos cheirar, vamos olhar, porque amanhã não sabemos o que vai estar aqui.

Vamos gozar de tudo o que podemos. Não nos acostumemos, não nos limitemos, não tenhamos medo de errar.

 

Esta semana num filme chamado "Sr. Ninguém" ele dizia que é difícil tomar decisões porque uma vez que as tomamos não podemos voltar atrás e enquanto não decidimos tudo se mantém possível.

Parece que existe uma pressão de que temos de encontrar o Sr. Perfeito no primeiro tiro, nos primeiros anos de escola, nos primeiros verões, nas primeiras saídas à noite.

 

Temos de nos permitir sofrer. Tentar, abrir as portas às pessoas para entrarem na nossa vida e nos conquistarem, mesmo que isso não dê em nada.

Ninguém é obrigado a ficar com ninguém, não há regras.

Porque se não, como diz aquela comum frase cuja autoria desconheço, "Podemos acabar por perder a lua enquanto andamos a contar as estrelas".

 

Beijos!

 

11
Jan18

Vamos falar de drogas?

Esta é a razão pela qual não escrevo há tanto tempo.

Quero escrever sobre drogas e não sei como fazer.

Não sei se seria um tópico relevante face ao contexto do blog.

Não sei se seria informação útil ou com alguma empatia de quem lê.

 

Sim, verdade que o meu blog é quase um diário, mas se o coloco publico é porque também quero feedback, porque as minhas duvidas e certezas podem bater nas de outras pessoas e haver uma partilha que gere resultado positivo.

 

Como poderia encaixar o assunto "droga" neste contexto?

Bom, a verdade é que não sei, mas estava muito ansiosa para vos contar.

Seja lá quem for o "vos".

 

Nestas ultimas duas semanas sinto que andei\ando em metamorfose.

Que activei uma parte do cérebro adormecida, ou que nem sabia que estava lá.

Não sei explicar.

Fiz coisas que sempre estiveram disponíveis e nunca quis fazer, ou que nem coloquei como possibilidade.

Saí da minha zona de conforto.

Com uma coisa tão básica e simples.

O universo é de facto uma coisa incrível.

Sabem quando por alguma razão estão mais em baixo e pedem um sinal ao universo?

 

Foi isso que me aconteceu.

E o meu sinal veio personificado.

Lembram-se como me queixava de não ser fácil fazer amizades? Isso mesmo.

Não sei como de repente, parece tudo tão fácil!

Estarei eu a ser ingénua outra vez?

 

Veremos.

 

Tudo aconteceu numa noite de domingo.

 

 

Estava na fase inicial do luto dele.

Liguei a musica, bebi umas cervejas e já começava a ficar impaciente, modo depressivo.

 

"Tenho de ver pessoas, mexer o corpo", pensei.

 

Mandei uma mensagem ao meu melhor amigo a avisar.

Ia sair sozinha.

Não faço isto muitas vezes mas sempre que fiz, soube pela vida.

Achei por bem dizer-lhe para onde ia (não fosse acontecer-me alguma coisa) e ele só respondeu "Diverte-te".

Acho que ele nem acreditou que fosse mesmo fazer isso, tendo em conta que trabalhava no dia seguinte.

 

Cais Sodré, rua cor-de-rosa. 

Cheguei lá eram 23:00.

Conversei um bocado com o dj que é meu conhecido.

As horas iam-se passando e eu aproveitava.

Dancei, bebi, ri, transpirei. Estava no auge. Não havia desgosto amoroso que habitasse na minha cabeça naquele momento.

Contudo, e porque a responsabilidade chamava, perto das 03:00 começo a aprontar-me para ir para casa.

E já me tinha esticado!

 

Danço então a ultima musica e puxo do casaco quando sou interrompida por uma rapariga.

"Desculpa incomodar-te mas, estás sozinha não estás? Eu estou ali com um amigo há algum tempo também."

"Sim estou, costumo vir aqui algumas vezes."

"Ah ok. Isto pode parecer estranho mas, eu e o meu amigo vamos ali ao bar da frente, por acaso gostarias de vir connosco? Não vamos demorar muito."

 

De facto foi estranho.

Parecia estar num daqueles momentos de filmes como "Taken", ou "Hostel".

Pergunto ao meu amigo dj se os conhece. Ele acena com as mãos indicando que não.

Pensei..."Quem me vir aqui a dançar sozinha também pode achar estranho, e eu sou do bem."

"Vou à confiança", disse-lhe.

E fui.

 

Notei que eles já eram conhecidos na casa.

Falaram ao staff e não pagamos entrada.

Pedimos todos uma cerveja.

Fiquei surpreendida com a movimentação de um domingo na cidade, a casa estava bem composta.

 

Iniciámos então as apresentações.

Entretanto aproxima-se um rapaz. Um amigo deles.

Apresenta-se e diz algo ao ouvido dela.

A rapariga faz-me sinal e diz-me "Vamos ao wc, vem!"

Pega na minha mão e lá vou eu.

 

Confesso que ela era super sedutora. 

Enfiámo-nos os 4 no cubículo, eu ainda de cigarro na mão, coloco o pé em cima do tampo da sanita e agarro-me com força à  maçaneta da porta para que ninguém nos apanhasse.

 

Enquanto um segurava o Iphone que servia de base à partilha o outro sacava da grama e espalhava o pó em cima do ecrã preto.

"Cartão e nota" diz ela.

Eu fiquei a assistir.

 

Parecia a distribuição de cartas do BlackJack.

 

No final sobra uma linha e dizem-me:

"Agora és tu."

"Eu? Como se faz?"

"É só colocares a nota no nariz e cheirares, não coloques a cabeça para trás, é suposto o pó subir, não descer."

"Ok."

"Já está e agora?"

"Agora vamos dançar. Se sentires os lábios ou dentes dormentes, é sinal que é boa!"

 

Lá fomos nós para a pista de dança.

Se fiquei com alguma coisa dormente, não dei conta. 

Não senti nenhuma alteração.

De 30 em 30 minutos lá íamos fazer o refill.

Sentia-me rebelde e inocente ao mesmo tempo. 

Era um ritual "proibido" e excitante. Mais ainda por nem sequer conhecer aquelas pessoas todas.

Eu continuava sem sentir nada.

 

Já sem conta nas horas e bem molhada das cervejas começo a falar com duas raparigas que em poucos minutos convenci a juntarem-se ao grupo.

Estava a descobrir uma adrenalina que nunca tinha experimentado: falar com pessoas totalmente estranhas era realmente uma droga viciante.

Quanto à cocaína, nada de efeitos.

 

No meio da converseta uma das novas raparigas diz que tem um amigo dentro de um bar à nossa espera.

Woooo lá vamos nós todos não sei para onde.

Quando dei por mim estava num bar minúsculo, de porta fechada, onde o dono já preparava linhas atrás do balcão e eu já tinha mais uma cerveja na mão.

 

Entretanto dou conta que estou indisposta. Vou vomitar.

Já tinha gasto os cartuxos e começava a ficar com sono.

Sim sono, o que não era suposto.

Nisto, eram 06:30.

Os meus novos amigos tão queridos, acompanham-me até ao carro.

Trocamos números e vou embora.

 

No caminho pensei:

"Foi giro, mas coisa do momento, amanhã ninguém se lembra de ninguém."

 

Contudo, não foi assim.

No dia seguinte já estávamos a combinar uma saída para o fim-de-semana.

Desta vez adiantei-me e perguntei se não tinham mdma para levar.

Já tinha experimentado uma vez numa festa fora de Portugal e adorei, mas como aqui não tinha alguém próximo que consumisse nem alguém a quem comprar, nunca mais tomei.

 

Chegou sábado.

O ponto de encontro era o bar onde nos conhecemos.

Aparece-me apenas um elemento do grupo. Um dos rapazes.

O outro casal desmarcou-se.

Soou-me um pouco a engate.

Enviei mensagem à outra rapariga do grupo que me explicou porque não pôde ir.

Eu acreditei.

Siga 'pa bingo.

 

Boas horas de conversa e bailarico.

Foi estranho, parecia que já o conhecia há anos!

Nota: zero interesse romântico da minha parte.

Começa a chegar a hora de ir para um ambiente mais electrónico e nada de mdma.

 

Ele entretanto já tinha as suas gramas de cocaína, que eu recusei visto que na outra noite não senti absolutamente nada e ainda vomitei.

Decidimos ir dar uma espreitadela ao bar da frente.

Eu já alterada do álcool, ele todo astuto da branca, era tudo nosso.

 

Não se passava absolutamente nada.

Decidimos então escolher alguém para juntar-se a nós e animar o clã.

Era disto que nós gostávamos.

Persuadir pessoas a juntarem-se a nós noite dentro!

Começámos a conversar com um casal.

Tinham 20 anos e eram do Porto.

Depois de 30 minutos de conversa perguntámos se queriam ir connosco a uma discoteca.

Perguntaram apenas se era longe porque tinham comboio às 07:30.

 

Fiquei um pouco admirada com a facilidade que é de levar alguém a deixar o conforto da sua segurança para se juntar aos planos de uns totais desconhecidos.

Mas também foi fácil comigo portanto...

 

Continuando.

Já na discoteca não sei como fiz perdi-me de toda a gente.

Andava às voltas à procura deles em todo o lado.

A pista era escura então parecia uma tonta a tentar enxergar bem a cara de todas as pessoas.

Quando de repente vejo no bar uma das miúdas da noite de domingo.

Mega festa! 

Aproveitei para lhe perguntar se tinha md ao que ela me respondeu não.

Perguntou-me "tens coca?" e eu disse-lhe "eu não, mas o meu amigo que anda aí na pista tem"

Continuei à procura de md, perguntando a varias raparigas que por lá passavam.

Respondiam-me "Md não, mas tenho pastilhas queres?"

"Pastilhas? Sei lá se quero", pensava eu.

 

Depois de alguns minutos a divagar finalmente encontrei o meu amigo, que já tinha perdido o casal do Porto, mas que tinha encontrado o grupo das meninas de domingo.

No total o gang já contava com 6 membros!

Já estavam todos animados e eu, a única sóbria que nem um passarinho, já só me apetecia ir dormir.

Entretanto ao ver-me hipnotizada o meu amigo passa-me para a mão um comprimido verde flurescente.

 

"Toma isso como se fosse comprimido, é ecstasy"

Lá tomei.

Perdido por 100 perdido por 1000.

 

Comecei a mexer o corpo a ver se aquilo funcionava e nada.

Já tinham passado uns 30 minutos e nada.

Entretanto o dj agradece, as pessoas começam a sair e eu coloco-me na fila do bengaleiro com eles.

Às tantas apercebo-me que as caras das pessoas estavam a tremer.

Pergunto a algumas porque razão estavam a tremer e respondem-me todas "Está frio".

Tudo bem.

Mas não era frio, era o ecstasy a fazer efeito.

Saímos porta fora e eu nas nuvens!

Alegre, energética, sorridente, sociável, amável....começo gentilmente a apalpar rabos de raparigas que por la andavam. Que vergonha.

Lembro-me de me sentir feliz e leve.

Lembro-me também de virem ralhar comigo por parecer uma miúda histérica que saia à noite pela primeira vez.

"Controla-te pá estás a dar demasiada cana" disse-me alguém.

Nem tinha essa percepção.

 

Repousei.

Fiz umas quantas amizades durante esses minutos ainda assim.

Pensei "Não posso ir para casa agora!".

Diz o meu amigo "Vamos apanhar taxi, vamos ao after"

E eu "After?"

Sentia-me de facto alguém que tinha saído à noite pela primeira vez.

As minhas noites o mais tarde que duraram foi até as 07:30.

Depois disso o after é cama.

"Bom, go with the flow."

Entretanto começo a gritar para todos os outros novos amigos "Venham ao after!!"

No final éramos uns 3 taxis de pessoas desconhecidas.

 

Nem sabia para onde estava a ir, nunca tinha tomado ectasy, nunca tinha saído com desconhecidos.

Era tudo a primeira vez.

Bora la.

 

Saímos do taxi e começo a andar para uma zona que não me parece nada de bares, mas sim residencial.

"Será que vamos para casa de alguém?" 

Quando chego à porta (já só tenho flashs) dou-me conta que iria viver algo que não se comparava a nada do que já tinha vivido.

Parecia um momento saído de um filme.

Entrámos.

Por momentos pensei que tivesse a delirar da pastilha.

Era tudo tão diferente, tanta informação para absorver, pessoas, cheiros, cores, sons, tão diferentes...

O local era como uma casa abandonada, com varias pessoas sentadas ou a circular, uma zona exterior e uma pista de dança escura.

Quando chegámos, foi para a pista que fomos porque eu estava acelaradissima.

 

Íamos alternando a visita entre a pista de dança escura (com óptimo som) e as salas de convivência.

Literalmente são salas de convivência, de dissertação, partilha, espétaculo.

É como se naquele sitio pudéssemos ser apenas e só nós próprios sem que ninguém nos julgasse.

É como se o fascínio de ter pessoas tão diferentes se sobrepusesse ao medo do desconhecido.

Sim medo porque vêem-se pessoas com um aspecto de prisão daquelas que nem tive coragem de ter eye contact.

 

No entanto, podia ver-se de todo o tipo de pessoas.

Quando digo todo é...um médico sentado ao lado de um arrumador de carros. 

Ambos a falarem e a partilharem ideias, sem rótulos ou preconceitos.

Sem barreiras sociais!!

De repente, senti que descobri um novo submundo social que até então estava tão distante do meu imaginário.

Foi isso que me fascinou naquele sitio.

Apesar de algumas pessoas terem um aspecto de homicidas, no final, não sei se efeitos das drogas ou não, acabavam por ser pacificas.

Contudo, precaução e agua benta nunca foram demais.

Garanto-vos que mesmo nas nuvens, o meu sistema de sobrevivência racionalizou bem as pessoas com quem interagi.

Mantive-me calada.

 

O sitio fechava às 12:00, mas fomos embora por volta das 11:00.

Não que soubesse as horas, nem que procurasse sabê-las.

Mas o corpo começou a acordar da pastilha e tudo me começava a parecer desconfortável.

Cheguei a casa as 12:30.

Nunca uma noite para mim tinha sido tão longa.

 

Deitei-me na cama e durante umas horas tive a fazer cálculos matemáticos com matriculas e a imaginar buracos negros a engolirem-me, até que acabei por adormecer.

No dia seguinte foi como se nada se passasse, contudo o cansaço físico que as drogas fizeram "adormecer" foram-se sentindo nos próximos 2/3 dias.

 THE END

 

 

Este foi o inicio de duas semanas de cocaína, mdma e pastilhas.

Tenho-vos a dizer que ganhei uma percepção diferente de mim e dos outros.

Desmistifiquei a ideia de que "se experimentar uma vez fico viciada".

E acima de tudo tive a oportunidade de conhecer lugares e pessoas que noutra circunstância não se proporcionaria.

É uma sensação quase de saída da puberdade.

 

Como é óbvio não penso fazer de todos os fim-de-semana um workshop de experimentações.

Estas substâncias químicas são bombas para o corpo e principalmente cabeça.

Além disso, um fim-de-semana não chega bem para aproveitar e o cansaço acaba por ser maior do que o proveito por isso é preciso eleger bem se vale a pena ou não tomar alguma coisa.

 

O engraçado é que eu era super céptica a tomar qualquer coisa fora de álcool.

Neste momento, não olho para "a droga" como um bicho papão que vendem.

Acho que se estivermos bem emocionalmente e soubermos utilizar estas substâncias para fins recreativos podem mesmo ser um veiculo interessante de auto-conhecimento.

 

Questionei-me se devia escrever este texto por ser um assunto controverso, mas estas experiências também fazem de parte de quem eu sou e da minha vida e é para isso que tenho o blog, não só para publicar o politicamente correcto.

Além disso, é a minha experiência...que importância tem?

 

Um beijo,

Podenga