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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

05
Ago16

Diário de uma mulher menstruada

Bom dia a todos desde o deserto.

 

Estou neste momento com a cabeça enfiada na areia para ver se consigo passar estes dias sem matar ninguém.

 

Era mesmo isto que me apetecia estar a fazer, mas não....não não não...estou num escritório, sentada, em frente a um computador, a sofrer contracções de 5 em 5 segundos como se estivesse a dar a luz em pleno open space.

 

Até o vento da ventoinha me faz frio. Quando a desligo faz calor. E o calor deixa-me muito irritada. E se estou irritada vou tratar mal alguém.

 

Sou uma menstruada inconformada, aliás já estou com náuseas só de ter mencionado esta palavra, normalmente não a escrevo toda, escrevo como se fosse um palavrão (uso o asterisco) e fica menstru*.

 

Odeio estar assim, nunca gostei, mas desde que deixei de tomar a pílula por razões éticas isto passou a ser mais complicado.

Sinto muitos sentimentos durante estes dias.

 

Passei a usar os tampões cotton care da marca Continente por serem biológicos, mas até isso já me irrita pois como são biológicos tenho de os trocar quase de hora em hora.

Ou seja, além de me sentir nojenta e ter dores e ter muitos sentimentos ainda tenho de me relembrar disso de hora em hora.

 

Então hoje, precisamente hoje, tivemos um problema com os esgotos, então estão entupidos.

Acho que o senhor até teve medo de acabar a frase "Não podem ir ao WC até a situação se resolver".

 

Só me apetece matar pessoas, contudo se falam mal para mim apetece-me chorar.

Sou um serial killer e um bébé ao mesmo tempo, tudo na mesma pessoa.

 

Ja mencionei o calor?

04
Ago16

Tenho saudades tuas

Eu sei que é egoísta querer manter-te perto de mim quando os teus olhos vêm coisas que os meus não.

Quando o teu coração sente coisas que o meu não.

Quem me dera poder fazer-me amar-te perdidamente.

Ou fazer-te ver-me apenas como uma amiga.

Seriamos mais felizes. Seriamos todos mais felizes.

 

Sinto tanto a tua falta.

A falta das tuas palavras.

Das histórias que me contavas, que eram tantas e tão belas.

Dos nossos pequenos-almoços para ver o nascer do sol, onde discutíamos os problemas da humanidade e observávamos os pássaros a voar.

 

Onde, atrás de um cigarro ou outro, mandavas aquelas piadas sem sentido e, estivesse quem estivesse, não me conseguia controlar.

Onde, de minuto a minuto mandavas um miolo a um dos pardais que por ali nos fazia companhia.

 

Mas há dias em que essa saudade passa a dor.

São dias como hoje.

Procurei-te para partilhar o mais profundo dos meus sentimentos.

Daquilo que me doí e me destrói e bem sei que a ti também.

Não são os meus problemas...oh não, esses eu cá os resolvo sozinha.

 

São os problemas dela. Da Mãe. Da natureza.

 

Quando sinto e sei que o único que me vai compreender és tu.

Sinto saudades de poder falar contigo sobre problemas que parece que só nós identificámos. São invisíveis para os demais.

Tenho saudades de desabafar contigo.

Das palavras e ensinamento que me irias dar ao ver-me, mais um vez, desconsolada por aquilo que não consigo controlar.

Da forma como me irias mostrar alternativas para praticar o bem.

Da forma como eu iria imediatamente dizer que sim.

Da maneira que iríamos sorrir no final.

Da maneira como a ferida cicatrizou apenas e só contigo.

 

Agora que já não estás na minha vida sinto-me a secar.

Este calor do ódio deixa-me seca, sem esperança e consumida pela desgraça alheia.

 

Sinto-me com sede.

Sede da tua esperança.

Sede da tua espiritualidade.

Sede da tua sensibilidade.

Da tua facilidade de ajudar o próximo e não olhar a quem/quê.

 

De onde vou eu beber agora?

Olho á volta e só vejo pessoas vazias, com ideias compradas, com acções nulas...

 

Se eu pudesse escolher amar-te como me amas...

Iria ser muito mais do que nós.

 

01
Ago16

O momento em que o mundo pára

 

 

 

É reconhecido á mulher uma capacidade de expressar as suas emoções de uma forma mais aberta do que o homem.

Contudo, acredito que os homens só não têm essa facilidade devido a todos os filtros que a sociedade lhes foi incutindo....

 

Adiante...

 

Estava a trabalhar há 2 anos numa das maiores consultoras do mundo.

Dada á pressão que sofria todos os dias, era importante criar uma barreira mental e emocional de forma a não ser esponja de todos os sentimentos alheios e manter o discernimento para não esquecer as minhas prioridades.

 

Contudo, manter essa barreira, quando falta o apoio daqueles que mais precisamos (família, amigos, namorado) e sem quaisquer momentos de "escape", é uma tarefa extremamente difícil.

 

Chamaram-me ao gabinete do chefe para me comunicar que dali a uma semana iria para o Brasil num projecto com duração de 2 anos, onde o sistema de viagens seria 3 semanas lá, 1 cá.

 

Devo ter ficado verde.

 

O meu namorado e eu acabamos de nos juntar e eu vou para o Brasil durante 2 anos? A serio?!!!!

 

Bom, não tive outra hipótese, não havia mais ninguém com a minha formação. 

 

Começou o projecto e eu percebi logo que aquelas pessoas não eram iguais ás que eu, felizmente, tinha trabalhado até então..

São as típicas lambe botas do chefe.

Ovelhas.

 

Fiz a primeira viagem, em classe económica.

Viajei sozinha e aterrei de madrugada.

Com o jetlag não consegui dormir e mal acordei contactei por skype um dos colegas que já estava no cliente (ficava a uns 400m do hotel).

Qual não foi o meu espanto, que ele não me foi buscar ao hotel. Deu-me as indicações por skype e eu fui lá ter sozinha.

 

As suspeitas verificavam-se. 

 

Cheguei lá, foi como se já lá estivesse há anos. 

Ninguém me recebeu, ninguém veio ter comigo, nada.

 

Eu tive de ir ter com as pessoas e "integrar-me" se quisesse.

Parecia aquelas cenas de prisão dos filmes em que eu era a "novata".

Sentia que todos cochichavam a minha chegada, mas não sei porquê, ninguém se aproximava para me ajudar.

 

Passado meio ano de lá estar já se fazia sentir o meu estado emocional.

Durante o trabalho fazia-me de forte, mas chegava ao hotel e desabava em lágrimas.

Não gostava do sitio, das pessoas com quem trabalhava, tinha saudades da família, do namorado, da comida...

 

Para ajudar á festa, descubro que o meu namorado anda a fazer "amigas" enquanto eu estou lá.

 

Era mais uma coisa com a qual tinha de lidar: ciumes. Mulher ciumenta a ter discussões por skype com a pior rede Wi-fi do mundo.

 

De cada vez que chegava a Portugal sentia menos e menos entusiasmo por parte dele por me ver.

Podia ser só a minha carência, mas infelizmente agravou para um nível de rejeição.

 

Evitava-me fisicamente.

Nem um beijo mais elaborado lhe podia dar.

Dizia-me ele: "Lá estás tu, só pensas nisso".

Lol

 

Estava destroçada. A minha auto-estima não existia.

Além de estar a ser escrutinada pelos meus colegas de projecto e pelas minhas avaliações de performance, o meu namorado não me quer tocar.

 

Já fazia um ano que estava nisto.

As crises de choro intensificavam-se e os ciumes também.

 

Por mês, chegava a gastar 150 euros de roaming para controlar o meu namorado.

 

Mas não foi preciso gastar muito mais.

 

Um dia, para tentar relaxar um bocadinho marco uma massagem no hotel.

Era mesmo aquilo que me estava a fazer falta.

Depois do trabalho lá fui eu para o centro de spa.

 

Vou a trocar mensagens com o meu namorado (que para enquadrar tinha um dual-sim) e eis senão quando faço-lhe uma pergunta, e ele responde-me de outro numero.

 

Ou seja, ele tinha outro numero e eu não sabia.

 

(Estou a suar só de relembrar)

 

Nesse momento eu parei, virei-me contra a parede e fiz muita força para não chorar.

 

Tive o discernimento de dizer ao senhor do spa que tinha ocorrido um imprevisto e que não poderia ir á massagem.

 

Envio-lhe uma mensagem a dizer "vai ao Skype".

 

Cheguei ao quarto com tanta raiva dele que nem sequer chorei.

 

Liguei-me ao skype e disse-lhe friamente: "Quando chegar a Portugal, não te quero mais ver na minha casa".

 

Namorávamos há 3 anos. Tinha sido o meu primeiro namorado e a única que pessoa que amei até hoje.

Era o meu melhor amigo.

 

Os pedaços de mim que ainda existiam naquele momento desfizeram-se.

Liguei para a única rapariga do grupo que eu seria capaz de desabafar uma coisa destas, ainda que não esperasse grandes conselhos.

 

Disse-lhe o que se tinha passado e pedi-lhe para ter alguma compreensão relativamente á minha prestação no projecto dali para a frente.

 

É muito duro fazer um luto de uma relação. Mas fazê-lo sozinha e discretamente é agonizante.

 

Por esta altura, chegou a única noticia que me poderia deixar feliz: O projecto foi encurtado. Iríamos embora dali a 2 meses.

 

Quando cheguei a Portugal já não havia vestígio dele.

Tal como lhe tinha dito para fazer, saiu antes de eu chegar. 

 

Foi um golpe do destino termo-nos separado precisamente antes da ultima viagem e juntado precisamente antes da primeira.

 

Cheguei a Portugal e decidi despedir-me.

 

Precisava parar para lamber as feridas, e reconstruir a Leoa que um dia existiu em mim.