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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

11
Jan18

Vamos falar de drogas?

Esta é a razão pela qual não escrevo há tanto tempo.

Quero escrever sobre drogas e não sei como fazer.

Não sei se seria um tópico relevante face ao contexto do blog.

Não sei se seria informação útil ou com alguma empatia de quem lê.

 

Sim, verdade que o meu blog é quase um diário, mas se o coloco publico é porque também quero feedback, porque as minhas duvidas e certezas podem bater nas de outras pessoas e haver uma partilha que gere resultado positivo.

 

Como poderia encaixar o assunto "droga" neste contexto?

Bom, a verdade é que não sei, mas estava muito ansiosa para vos contar.

Seja lá quem for o "vos".

 

Nestas ultimas duas semanas sinto que andei\ando em metamorfose.

Que activei uma parte do cérebro adormecida, ou que nem sabia que estava lá.

Não sei explicar.

Fiz coisas que sempre estiveram disponíveis e nunca quis fazer, ou que nem coloquei como possibilidade.

Saí da minha zona de conforto.

Com uma coisa tão básica e simples.

O universo é de facto uma coisa incrível.

Sabem quando por alguma razão estão mais em baixo e pedem um sinal ao universo?

 

Foi isso que me aconteceu.

E o meu sinal veio personificado.

Lembram-se como me queixava de não ser fácil fazer amizades? Isso mesmo.

Não sei como de repente, parece tudo tão fácil!

Estarei eu a ser ingénua outra vez?

 

Veremos.

 

Tudo aconteceu numa noite de domingo.

 

 

Estava na fase inicial do luto dele.

Liguei a musica, bebi umas cervejas e já começava a ficar impaciente, modo depressivo.

 

"Tenho de ver pessoas, mexer o corpo", pensei.

 

Mandei uma mensagem ao meu melhor amigo a avisar.

Ia sair sozinha.

Não faço isto muitas vezes mas sempre que fiz, soube pela vida.

Achei por bem dizer-lhe para onde ia (não fosse acontecer-me alguma coisa) e ele só respondeu "Diverte-te".

Acho que ele nem acreditou que fosse mesmo fazer isso, tendo em conta que trabalhava no dia seguinte.

 

Cais Sodré, rua cor-de-rosa. 

Cheguei lá eram 23:00.

Conversei um bocado com o dj que é meu conhecido.

As horas iam-se passando e eu aproveitava.

Dancei, bebi, ri, transpirei. Estava no auge. Não havia desgosto amoroso que habitasse na minha cabeça naquele momento.

Contudo, e porque a responsabilidade chamava, perto das 03:00 começo a aprontar-me para ir para casa.

E já me tinha esticado!

 

Danço então a ultima musica e puxo do casaco quando sou interrompida por uma rapariga.

"Desculpa incomodar-te mas, estás sozinha não estás? Eu estou ali com um amigo há algum tempo também."

"Sim estou, costumo vir aqui algumas vezes."

"Ah ok. Isto pode parecer estranho mas, eu e o meu amigo vamos ali ao bar da frente, por acaso gostarias de vir connosco? Não vamos demorar muito."

 

De facto foi estranho.

Parecia estar num daqueles momentos de filmes como "Taken", ou "Hostel".

Pergunto ao meu amigo dj se os conhece. Ele acena com as mãos indicando que não.

Pensei..."Quem me vir aqui a dançar sozinha também pode achar estranho, e eu sou do bem."

"Vou à confiança", disse-lhe.

E fui.

 

Notei que eles já eram conhecidos na casa.

Falaram ao staff e não pagamos entrada.

Pedimos todos uma cerveja.

Fiquei surpreendida com a movimentação de um domingo na cidade, a casa estava bem composta.

 

Iniciámos então as apresentações.

Entretanto aproxima-se um rapaz. Um amigo deles.

Apresenta-se e diz algo ao ouvido dela.

A rapariga faz-me sinal e diz-me "Vamos ao wc, vem!"

Pega na minha mão e lá vou eu.

 

Confesso que ela era super sedutora. 

Enfiámo-nos os 4 no cubículo, eu ainda de cigarro na mão, coloco o pé em cima do tampo da sanita e agarro-me com força à  maçaneta da porta para que ninguém nos apanhasse.

 

Enquanto um segurava o Iphone que servia de base à partilha o outro sacava da grama e espalhava o pó em cima do ecrã preto.

"Cartão e nota" diz ela.

Eu fiquei a assistir.

 

Parecia a distribuição de cartas do BlackJack.

 

No final sobra uma linha e dizem-me:

"Agora és tu."

"Eu? Como se faz?"

"É só colocares a nota no nariz e cheirares, não coloques a cabeça para trás, é suposto o pó subir, não descer."

"Ok."

"Já está e agora?"

"Agora vamos dançar. Se sentires os lábios ou dentes dormentes, é sinal que é boa!"

 

Lá fomos nós para a pista de dança.

Se fiquei com alguma coisa dormente, não dei conta. 

Não senti nenhuma alteração.

De 30 em 30 minutos lá íamos fazer o refill.

Sentia-me rebelde e inocente ao mesmo tempo. 

Era um ritual "proibido" e excitante. Mais ainda por nem sequer conhecer aquelas pessoas todas.

Eu continuava sem sentir nada.

 

Já sem conta nas horas e bem molhada das cervejas começo a falar com duas raparigas que em poucos minutos convenci a juntarem-se ao grupo.

Estava a descobrir uma adrenalina que nunca tinha experimentado: falar com pessoas totalmente estranhas era realmente uma droga viciante.

Quanto à cocaína, nada de efeitos.

 

No meio da converseta uma das novas raparigas diz que tem um amigo dentro de um bar à nossa espera.

Woooo lá vamos nós todos não sei para onde.

Quando dei por mim estava num bar minúsculo, de porta fechada, onde o dono já preparava linhas atrás do balcão e eu já tinha mais uma cerveja na mão.

 

Entretanto dou conta que estou indisposta. Vou vomitar.

Já tinha gasto os cartuxos e começava a ficar com sono.

Sim sono, o que não era suposto.

Nisto, eram 06:30.

Os meus novos amigos tão queridos, acompanham-me até ao carro.

Trocamos números e vou embora.

 

No caminho pensei:

"Foi giro, mas coisa do momento, amanhã ninguém se lembra de ninguém."

 

Contudo, não foi assim.

No dia seguinte já estávamos a combinar uma saída para o fim-de-semana.

Desta vez adiantei-me e perguntei se não tinham mdma para levar.

Já tinha experimentado uma vez numa festa fora de Portugal e adorei, mas como aqui não tinha alguém próximo que consumisse nem alguém a quem comprar, nunca mais tomei.

 

Chegou sábado.

O ponto de encontro era o bar onde nos conhecemos.

Aparece-me apenas um elemento do grupo. Um dos rapazes.

O outro casal desmarcou-se.

Soou-me um pouco a engate.

Enviei mensagem à outra rapariga do grupo que me explicou porque não pôde ir.

Eu acreditei.

Siga 'pa bingo.

 

Boas horas de conversa e bailarico.

Foi estranho, parecia que já o conhecia há anos!

Nota: zero interesse romântico da minha parte.

Começa a chegar a hora de ir para um ambiente mais electrónico e nada de mdma.

 

Ele entretanto já tinha as suas gramas de cocaína, que eu recusei visto que na outra noite não senti absolutamente nada e ainda vomitei.

Decidimos ir dar uma espreitadela ao bar da frente.

Eu já alterada do álcool, ele todo astuto da branca, era tudo nosso.

 

Não se passava absolutamente nada.

Decidimos então escolher alguém para juntar-se a nós e animar o clã.

Era disto que nós gostávamos.

Persuadir pessoas a juntarem-se a nós noite dentro!

Começámos a conversar com um casal.

Tinham 20 anos e eram do Porto.

Depois de 30 minutos de conversa perguntámos se queriam ir connosco a uma discoteca.

Perguntaram apenas se era longe porque tinham comboio às 07:30.

 

Fiquei um pouco admirada com a facilidade que é de levar alguém a deixar o conforto da sua segurança para se juntar aos planos de uns totais desconhecidos.

Mas também foi fácil comigo portanto...

 

Continuando.

Já na discoteca não sei como fiz perdi-me de toda a gente.

Andava às voltas à procura deles em todo o lado.

A pista era escura então parecia uma tonta a tentar enxergar bem a cara de todas as pessoas.

Quando de repente vejo no bar uma das miúdas da noite de domingo.

Mega festa! 

Aproveitei para lhe perguntar se tinha md ao que ela me respondeu não.

Perguntou-me "tens coca?" e eu disse-lhe "eu não, mas o meu amigo que anda aí na pista tem"

Continuei à procura de md, perguntando a varias raparigas que por lá passavam.

Respondiam-me "Md não, mas tenho pastilhas queres?"

"Pastilhas? Sei lá se quero", pensava eu.

 

Depois de alguns minutos a divagar finalmente encontrei o meu amigo, que já tinha perdido o casal do Porto, mas que tinha encontrado o grupo das meninas de domingo.

No total o gang já contava com 6 membros!

Já estavam todos animados e eu, a única sóbria que nem um passarinho, já só me apetecia ir dormir.

Entretanto ao ver-me hipnotizada o meu amigo passa-me para a mão um comprimido verde flurescente.

 

"Toma isso como se fosse comprimido, é ecstasy"

Lá tomei.

Perdido por 100 perdido por 1000.

 

Comecei a mexer o corpo a ver se aquilo funcionava e nada.

Já tinham passado uns 30 minutos e nada.

Entretanto o dj agradece, as pessoas começam a sair e eu coloco-me na fila do bengaleiro com eles.

Às tantas apercebo-me que as caras das pessoas estavam a tremer.

Pergunto a algumas porque razão estavam a tremer e respondem-me todas "Está frio".

Tudo bem.

Mas não era frio, era o ecstasy a fazer efeito.

Saímos porta fora e eu nas nuvens!

Alegre, energética, sorridente, sociável, amável....começo gentilmente a apalpar rabos de raparigas que por la andavam. Que vergonha.

Lembro-me de me sentir feliz e leve.

Lembro-me também de virem ralhar comigo por parecer uma miúda histérica que saia à noite pela primeira vez.

"Controla-te pá estás a dar demasiada cana" disse-me alguém.

Nem tinha essa percepção.

 

Repousei.

Fiz umas quantas amizades durante esses minutos ainda assim.

Pensei "Não posso ir para casa agora!".

Diz o meu amigo "Vamos apanhar taxi, vamos ao after"

E eu "After?"

Sentia-me de facto alguém que tinha saído à noite pela primeira vez.

As minhas noites o mais tarde que duraram foi até as 07:30.

Depois disso o after é cama.

"Bom, go with the flow."

Entretanto começo a gritar para todos os outros novos amigos "Venham ao after!!"

No final éramos uns 3 taxis de pessoas desconhecidas.

 

Nem sabia para onde estava a ir, nunca tinha tomado ectasy, nunca tinha saído com desconhecidos.

Era tudo a primeira vez.

Bora la.

 

Saímos do taxi e começo a andar para uma zona que não me parece nada de bares, mas sim residencial.

"Será que vamos para casa de alguém?" 

Quando chego à porta (já só tenho flashs) dou-me conta que iria viver algo que não se comparava a nada do que já tinha vivido.

Parecia um momento saído de um filme.

Entrámos.

Por momentos pensei que tivesse a delirar da pastilha.

Era tudo tão diferente, tanta informação para absorver, pessoas, cheiros, cores, sons, tão diferentes...

O local era como uma casa abandonada, com varias pessoas sentadas ou a circular, uma zona exterior e uma pista de dança escura.

Quando chegámos, foi para a pista que fomos porque eu estava acelaradissima.

 

Íamos alternando a visita entre a pista de dança escura (com óptimo som) e as salas de convivência.

Literalmente são salas de convivência, de dissertação, partilha, espétaculo.

É como se naquele sitio pudéssemos ser apenas e só nós próprios sem que ninguém nos julgasse.

É como se o fascínio de ter pessoas tão diferentes se sobrepusesse ao medo do desconhecido.

Sim medo porque vêem-se pessoas com um aspecto de prisão daquelas que nem tive coragem de ter eye contact.

 

No entanto, podia ver-se de todo o tipo de pessoas.

Quando digo todo é...um médico sentado ao lado de um arrumador de carros. 

Ambos a falarem e a partilharem ideias, sem rótulos ou preconceitos.

Sem barreiras sociais!!

De repente, senti que descobri um novo submundo social que até então estava tão distante do meu imaginário.

Foi isso que me fascinou naquele sitio.

Apesar de algumas pessoas terem um aspecto de homicidas, no final, não sei se efeitos das drogas ou não, acabavam por ser pacificas.

Contudo, precaução e agua benta nunca foram demais.

Garanto-vos que mesmo nas nuvens, o meu sistema de sobrevivência racionalizou bem as pessoas com quem interagi.

Mantive-me calada.

 

O sitio fechava às 12:00, mas fomos embora por volta das 11:00.

Não que soubesse as horas, nem que procurasse sabê-las.

Mas o corpo começou a acordar da pastilha e tudo me começava a parecer desconfortável.

Cheguei a casa as 12:30.

Nunca uma noite para mim tinha sido tão longa.

 

Deitei-me na cama e durante umas horas tive a fazer cálculos matemáticos com matriculas e a imaginar buracos negros a engolirem-me, até que acabei por adormecer.

No dia seguinte foi como se nada se passasse, contudo o cansaço físico que as drogas fizeram "adormecer" foram-se sentindo nos próximos 2/3 dias.

 THE END

 

 

Este foi o inicio de duas semanas de cocaína, mdma e pastilhas.

Tenho-vos a dizer que ganhei uma percepção diferente de mim e dos outros.

Desmistifiquei a ideia de que "se experimentar uma vez fico viciada".

E acima de tudo tive a oportunidade de conhecer lugares e pessoas que noutra circunstância não se proporcionaria.

É uma sensação quase de saída da puberdade.

 

Como é óbvio não penso fazer de todos os fim-de-semana um workshop de experimentações.

Estas substâncias químicas são bombas para o corpo e principalmente cabeça.

Além disso, um fim-de-semana não chega bem para aproveitar e o cansaço acaba por ser maior do que o proveito por isso é preciso eleger bem se vale a pena ou não tomar alguma coisa.

 

O engraçado é que eu era super céptica a tomar qualquer coisa fora de álcool.

Neste momento, não olho para "a droga" como um bicho papão que vendem.

Acho que se estivermos bem emocionalmente e soubermos utilizar estas substâncias para fins recreativos podem mesmo ser um veiculo interessante de auto-conhecimento.

 

Questionei-me se devia escrever este texto por ser um assunto controverso, mas estas experiências também fazem de parte de quem eu sou e da minha vida e é para isso que tenho o blog, não só para publicar o politicamente correcto.

Além disso, é a minha experiência...que importância tem?

 

Um beijo,

Podenga

 

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