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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

16
Fev17

Ele desapareceu. Devo dizer-lhe tudo o que está entalado?

Ás vezes escrevo e apago mensagens para ti.

Apetece-me tirar satisfações contigo.

Perguntar-te o que é que se passou para de repente desapareceres da minha vida.

Desaparecer não é bem o termo...ignorares-me.

Estas online no facebook, no whatsapp, agora até me segues no instagram, não sei bem para quê se não me falas vai para 2 meses...

 

Como é possível um homem mudar de um momento para outro?

 

Tu, que dizias que eu era diferentes das outras.

Tu, que dizias que tinhas saudades minhas.

 

Não sei se sabes ou te lembras quem eu sou...

Aquela a quem tu, duas ou três vezes por ano quando vinhas a Portugal e fazias questão de ver.

Que quando vias, ao invés dos frios dois beijinhos, me davas um intenso e longo abraço.

Aquela a quem tu perguntavas: "Achas que quando eu voltar para Portugal poderemos dar certo?"

 

Essa então foi memorável.

 

Será que já sabias que ias desaparecer no momento em que me fazias essas perguntas?

 

Durante 2 anos esperei ansiosa as tuas vindas.

Sabiam a pouco, mas era tão bom o tempo que passávamos juntos.

Juntos para nos conhecermos, para passearmos, comermos sushi, semear a amizade e cumplicidade de quem parecia conhecer-se à anos.

Estávamos a semear os frutos para colher quando finalmente voltasses e nos pudéssemos lançar nos braços um do outro.

Algo que iria ser diferente das relações normais, como dizias.

Um conto de fadas.

 

E eu sinceramente via essa vontade toda em ti. Por isso não me preocupava.

Não vou dizer que ficava parada à espera que voltasses.

Não vou dizer que não tive com outras pessoas durante o tempo em que estavas lá.

Mas isso nunca foi posto em causa.

Ambos sabíamos que era uma questão de tempo.

Tempo até tu voltares para Portugal.

 

A ultima visita foi em Agosto.

Dias antes de aterrar avisou-me logo do plano das férias dele para que pudéssemos coordenar os nossos dias de férias.

Afinal de contas ele estava praticamente o ano todo fora, compreendia a necessidade dele de rever família e amigos.

Lembro-me que mal aterrou em Lisboa enviou-me logo uma mensagem para combinarmos um jantar no dia seguinte.

 

Nunca falhava.

 

Durante o jantar surgiu a noticia que eu tanto ansiava: ia voltar para Portugal antes do final do ano.

"Só preciso vender o meu barco" dizia ele.

E eu com o coração aos pulos por ouvir aquelas palavras.

Mas mantive sempre a minha pose, para que ele não pensasse que iria ficar eternamente à espera dele.

Afinal de contas, nunca nenhum de nós se tinha declarado.

 

Durante as nossas conversas ele desabafava tudo comigo. A saúde do pai, a situação da empresa dele, a preocupação com o futuro do irmão mais novo. Sentia que comigo podia ser ele próprio e referia-me isso muitas vezes.

 

Talvez por essa razão e por essa relação tão cúmplice, nunca me questionei porque ele nunca tentara ter nada comigo.

Para mim, tínhamos todo o tempo do mundo, porque tanto eu como ele, sabíamos que era uma questão de tempo até assumirmos o que sentíamos um pelo outro.

Ao despedir-me dele avisei-o. "Não te esqueças que o meu aniversario é já para a semana e é em Vilamoura" .

"Não te preocupes, la estarei", disse ele.

 

E não me preocupei, ele nunca falhava.

 

Naquele dia foi diferente.

Ele nunca apareceu.

Nunca me deu os parabéns.

Só deu noticias 5 dias mais tarde com uma desculpa totalmente esfarrapada.

 

Ja passaram 2 meses e nunca mais me falou.

Até hoje a única interação que tivemos foi um "like" dele numa publicação minha do facebook.

 

Hoje decidi apagá-lo do facebook depois de ter visto varias fotos da farra que foi o fim-de-semana dele com os restantes expatriados.

Tou cansada de ser stalker.

 

Antes de o apagar ainda reflecti se deveria enviar-lhe uma mensagem.

Confesso que me senti mal em não deitar cá para fora o que sentia por ele me ter falhado, ter desaparecido, ignorado.

Se me apeteceu perguntar-lhe porquê? 

Claro que apeteceu, muito.

Se me apeteceu perguntar qual foi o propósito destes dois anos de promessas?

Claro que sim.

 

Mas qualquer coisa que ele diga, não vai fazer o tempo andar para trás.

Não vai fazê-lo estar lá comigo no dia dos meus anos como prometeu.

Não vai tirar este sabor de cinderela abandonada, enganada.

 

Além disso, e depois do que tenho visto, já nem sequer tenho esperança que ele volte para Portugal este ano.

Mas também não vou mentir, estou muito ansiosa para ver o que ele vai fazer a próxima vez que aterrar em Lisboa.

Talvez aí possa perguntar-lhe tudo aquilo que tenho guardado.

Até lá, vou fingir que foi um sonho.

Bom enquanto durou.