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A Podenga Portuguesa

Mulher dramática, pensativa, inquieta, feliz e infeliz. Que carrega o peso do mundo nas costas. Que é filha da mãe natureza. Acredita no amor, na empatia, na verdade, na hipótese.

A Podenga Portuguesa

08
Jul16

A primeiro sessão

Depois de 20 minutos a tentar estacionar, lá chego eu, cansada mas feliz. Naquele dia estava particularmente alegre. Estava um dia de sol espectacular e até conseguia sorrir, mesmo pensando que era uma troll por aceitar ir á terapeuta.

 

Toca a chegar, a cumprimentar quem não me responde (sim porque eu continuei).

Vou ao balcão para pagar a consulta, a senhora recepcionista atende o telefone e eu aproveito aqueles minutos para dar uma espreitadela pela agenda das consultas.

Eis senão quando o meu espanto de ler coisas como:

"João Maria de XXX - (filho do Eng. Eduardo de XXXX"

"Martim XXXX - (é medico, não se cobra consulta)"

"Eng. Constança XXXX - (filha do Eng XXXX)"

 

Pronto, percebi logo onde me fui meter. Pessoal que não sabe o que fazer com o dinheiro que tem e então acham graça ir gastar 100€ para poderem dizer palavrões e tratar alguém por "tu".

 

Ok, pára lá de ser arrogante sff.

Entrei no gabinete, mesmo cheiro a tabaco.

Desta vez vinha prevenida, caso ela começasse a fumar eu ia dizer logo que também queria. Seria uma boa forma de testá-la.

Entrei, esperou que eu falasse.

Enquanto eu falava ela escrevia, sempre com os seus tremores e eu a ficar desconcentrada.

 

Sabia lá como se fazia aquilo, nem nunca tinha ido a uma terapeuta, nem gostava, nem tinha nada a ver comigo.

Já estava lá obrigada, contrariada, porque os pais queriam muito. Porque a sociedade diz, que se a menina tem problemas de ansiedade vamos fechá-la numa sala com uma pessoa que ela nunca viu à frente e que a vai ouvir e por à prova com palavras estranhas e argumentos vendidos num livro.

Ok, bora lá, se calhar é só o meu preconceito a falar.

Contei-lhe coisas, não tudo. Ela ia perguntando e eu ia respondendo, com a energia controlada. Ah pois...tínhamos de estar em sintonia e ela estava misteriosa, não podia dar logo tudo.

 

Ela escreveu durante 1 hora e 30 minutos sem nem olhar para mim.

Pergunta-me "Posso fumar?" e eu respondi "Pode, mas eu posso fumar também?"

 

Pumba, notou-se que naquela fracção de segundos ela não soube o que responder.

Disse-me que sim (com um nó na garganta...muito nariz para o lado tipo olha-me esta gaja, daqui a nada 'tá-me a pedir um uisque com duas pedras de gelo.....)

 

Começou a falar e deu-me o veredicto dela. Resumindo : sou extremamente arrogante.

Já o tinha ouvido antes e até é uma coisa que tenho vindo a trabalhar, porque não gosto de ser assim.

 

Deu-me um trabalho de casa que também não me surpreendeu, o que gosto e não em mim e o que gostaria de mudar.

Como me tinha despedido tinha tempo que sobrava para fazer isso.

Praia, esplanada, café, cigarro, livro. Não fosse isto no Estoril e quase me sentia uma Carrie Bradshaw verão deprimente.

Ok, escrevi e adorei escrever, gostei do exercício, do sol, do empregado de mesa, de não ter nada para fazer senão viver aquele momento, do cigarro, do café enfim...

Levei então até à próxima consulta o meu caderno (quase diário) com coisas muito intimas sobre mim.

Ora bem, sendo algo muito precioso para mim, espero obviamente que a terapeuta oiça com muita atenção....e carinho... e que conversemos sobre mim e sobre o que escrevi com toda a paz, amor e serenidade...

Bom isto fui eu a imaginar a cena, claro que, volto a chegar lá, volta a a estar lá outro smurf que não responde ao meu bom dia e boa tarde, volta a estar lá a senhora com cabelo curto, magra, com tiques esquisitos, a fumar...e a minha energia a ser sugada.

 

Desta vez deu para confirmar a minha teoria do cigarro. Ela já nem me pergunta nada e saca do cigarro e começa a fumar. Claro..obvio...não queria dar-me abertura para que eu fumasse também. Coitada.

E eu só pensava: pago 100€ e nem fumar posso? mais valia ir beber um copo ao cais, saia de lá mais feliz.

Bom, li aquilo que escrevi, ela lá falou de uma ou outra coisa que considerou relevante e discutimos momentos marcantes da minha vida. Nomeadamente o assunto: emigração.

É um tema muito sensível para mim e com o qual tenho pouca abertura para discussão. Fui eu que vivi aquilo. End of story. Não foi ela. Como é que ela me pode dizer que aquilo que eu senti, durante meses e meses...eram coisas a relativizar?

Eu sofri imenso estando fora do meu pais sozinha, com pessoas que não eram minhas amigas, sem qualquer laço afectivo, sabe lá como é ....

Ok, já tinha o que queria, ela não era para mim.

Saí de lá pior do que entrei. Parecia que tinha sido atropelada por um camião. Cada tiro cada melro, porque eu sou isto e sou aquilo e sou arrogante e quero que os outros gostem de mim, mas não digo a ninguém bla bla bla e o mundo não gira á minha volta e que eu faço birras e por isso é que ninguém quer saber de mim lalalalalala

 

Vá lá miúda...porque raio pensas tu que lá pelas pessoas passarem tempo juntas se têm de relacionar? mas tas tola? isso é tudo coisas da tua cabeça. Lá por elas terem sido a tua unica companhia durante meses e meses isso não quer dizer que elas tenham de ficar tuas amigas....Deal with it.

Isso era o que queria ter ouvido.

 

Anyway decidi: Ok, vou-lhe dar até ao final destas 10 sessões, que se lixe, perdido por 100...